O boato

31.10.05

«O boato? Qual boato? Eu não sei de boato nenhum! Eu ouvi falar de nenhum boato

posted by rui at 31.10.05

Eu hoje acordei assim

O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes

posted by rui at 31.10.05

Ena

Querer ou não ser, eis a questão.

posted by rui at 31.10.05

28.10.05

Belle de jure
Belle de facto

posted by rui at 28.10.05

The office (iii)

The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

[Dylan Thomas]

posted by rui at 28.10.05

O meu suplemento

27.10.05

«Vulgata».

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A história repete-se

Primeiro como tragédia, depois como farsa, e depois como slogan.

posted by rui at 27.10.05

Cópia do dia

posted by rui at 27.10.05

26.10.05

posted by rui at 26.10.05

Eu sou um lambe-botas

25.10.05

É sempre reconfortante verificar que alguém nos entende. Joaquim de Almeida deve viver uma vida triste, miserável e mesquinha por causa disso mesmo. Quando alguém consegue baixar o balde ao fundo poço e içá-lo cheio, transbordante, da cristalina natureza de nós próprios - ai, é tão bom. Meu caro sniper, meu caro sniper, você acertou. Você diz que eu sou um lambe-botas. Mas não se limita a afirmá-lo, a mandar uma boca, não. Você vem com um argumento indesmentível: este. Eu admito. Eu sou um lambe-botas, este é um blogue lambe-botas (aliás, junto envio mais este argumento: aqui). É bem apanhado isso do PS. O amigo sniper perspicazmente não deixou de perceber que eu próprio tinha escrito «Eu sou um lambe-botas do PS». Agora é que me apanhou «red handed showing feelings». Você, caro amigo, mais do que ninguém deveria entender a natureza da mente fetichista, tendo em vista o destaque do sniperismo no relatório Kinsey (o cano, o gatilho, o anonimato, etc.) Não viu o Marnie? Deixo uma nótula contributiva para teoria geral do lambe-botismo: o lambe-botas lambe botas e não escrupuliza. Seja solidário.

posted by rui at 25.10.05

Berlusconi (ii)



Segundo o Público de hoje, Berlusconi acusou a televisão italiana de querer ridicularizá-lo quando ele, de facto, não é ridículo. Berlusconi acusou os media de serem controlados pela malévola esquerda quando ele, de facto, controla apenas os três canais da RAI, mais os três da Mediaset, mais metade de outro que comprou a Cecchi Gori para este pagar os ordenados à Fiorentina. Berlusconi protestou ter uma atitude tolerante e liberal perante os media quando, de facto, a Itália ocupa o 78º lugar no ranking global da Freedom House, cujo relatório de 2005 concluiu que a liberdade de imprensa se está a deteriorar em Itália:

Western Europe continued to boast the highest level of press freedom worldwide; in 2004, 23 countries (92 percent) were rated Free and 2 (8 percent) were rated Partly Free. Nevertheless, in 2003 Italy joined Turkey as the only countries in the region to be rated Partly Free. It was the first time since 1988 that media in an EU member state have been rated by the survey as Partly Free, and in 2004 media freedom in Italy emained constrained by the dominant influence of Prime Minister Silvio Berlusconi’s media holdings.
[p. 30 do relatório de 2005]

posted by rui at 25.10.05

Kristol clear

24.10.05

But it is only to a degree that neocons are comfortable in modern America. The steady decline in our democratic culture, sinking to new levels of vulgarity, does unite neocons with traditional conservatives--though not with those libertarian conservatives who are conservative in economics but unmindful of the culture. The upshot is a quite unexpected alliance between neocons, who include a fair proportion of secular intellectuals, and religious traditionalists. They are united on issues concerning the quality of education, the relations of church and state, the regulation of pornography, and the like, all of which they regard as proper candidates for the government's attention. And since the Republican party now has a substantial base among the religious, this gives neocons a certain influence and even power. Because religious conservatism is so feeble in Europe, the neoconservative potential there is correspondingly weak.

Irving Krsitol, «The Neoconservative Persuasion», The Weekly Standard, 2003.

posted by rui at 24.10.05

Berlusconi

O professor de ciência política Gianfranco Pasquino diz hoje ao Público que Berlusconi «não conseguiu moldar o sistema como teria desejado. Isso significa que a democracia italiana provou ser suficientemente forte». Pasquino engana-se. Infelizmente, não foi a democracia italiana que foi suficientemente forte. A pulsão autocrática de Berlusconi é indesmentível (e irreprimível) mas exerce-se nos limites do Estado. Ou seja, para simplificar, Berlusconi chega onde chega o Estado, chega onde chegam o governo e as administrações. Sucede que, em Itália, elas não chegam muito longe. Historicamente, Itália tem um fortíssima tradição de resistência ao Estado, tradição essa que teve início como forma orgânica de constituição da vida das comunidades locais (dispensa da justiça, resolução de disputas e manutenção da ordem pública) quando o Estado central simplesmente não existia. Antes do «Il Gattopardo», portanto. Já durante o século XIX, o Estado queria mas não conseguia - ou «queria» mas não queria - fazê-lo. Quado passou a querer mesmo, a referida constelação local de poderes de facto tratou de colonizar as suas estruturas em expansão, ou mesmo de confrontar-se abertamente com elas. O caso da Máfia é, obviamente, o melhor exemplo disto mesmo.
Deste ponto de vista, os casos oitocentistas de Portugal, Espanha e Itália contam uma história semelhante. A história de um Estado que procura deixar de ser uma presença remota e intemitente na vida quotidiana das populações. Fá-lo, esforçando-se por enquadrar a população e o território, nomeadamente através da administração periférica e - sim - das eleições. Sucede, porém, que o Estado não dispunha nem do pessoal, nem dos recursos, nem do poder para substituir as coligações locais de poder que haviam dominado, na prática, o Antigo Regime. Por sua vez, esses poderes ou resistiam abertamente à «colonização interna» do Estado, ou colonizavam eles próprios as novas estruturas, ou, em muitos casos, ambas as coisas. Assim, o Estado foi forçado a entrar, uma e outra vez, num processo de contratualização com poderes sociais seus concorrentes, e que não controlava directamente: câmaras municipais, a Igreja, e os caciques locais e respectivas clientelas. A linha de separação entre o Estado e a sociedade civil passava por dentro do próprio Estado. Os lugares da administração periférica que deveriam representar o «centro» face ao «mundo local» (no essencial, governadores civis e administradores de concelhos) serviam justamente para o inverso. A desejada remoção de intermediários na relação entre o Estado e o indivíduo ficou prejudicada. A escassez de pessoal suficientemente habilitado fomentava o acumular de funções e obscurecia a linha de divisão entre os poderes. Em muitos casos, até hoje.
Isto significa que em Itália, como em Portugal, existe todo um espaço propício à resistência e à intermediação, que se nutre da negociação entre o centro do poder e os seus pontos de aplicação locais. Esse espaço é ambivalente e, de um ponto de vista normativo, indesejável. Indesejável porque se, por um lado, pode servir de poderosa almofada de segurança contra uma apropriação autoriária ou menos democrática por parte do poder central, por outro, funciona como câmara de ressonância para os maiores atavismos e posiciona-se como entrave a uma evolução progressista e emancipatória, no sentido das pessoas se libertarem das grihetas «da terra» e «da fé», ou seus equivalentes contemporâneos - muitas vezes os mesmos.

posted by rui at 24.10.05

The office (ii)

22.10.05

No meu, ninguém sabe quem é Ricky Gervais. Nem eu.

posted by rui at 22.10.05

The office (i)

21.10.05

Quando se está a sair por uma porta e vem alguém na direcção oposta para entrar, a partir de quantos metros deixamos de segurar a porta à espera da pessoa que se aproxima? E se for uma rapariga?

posted by rui at 21.10.05

since the thing perhaps is

20.10.05

voices to voices,lip to lip
i swear(to noone everyone)constitutes
undying;or whatever this and that petal confutes...
to exist being a peculiar form of sleep

what's beyond logic happens beneath will;
nor can these moments be translated:i say
that even after April
by God there is no excuse for May

-bring forth your flowers and machinery:sculpture and prose
flowers guess and miss
machinery is the more accurate, yes
it delivers the goods,Heaven knows

(yet are we mindful,though not as yet awake,
of ourselves which shout and cling,being
for a little while and which easily break
in spite of the best overseeing)

i mean that the blond abscence of any program
except last and always and first to live
makes unimportant what i and you believe;
not for philosophy does this rose give a damn...

bring on your fireworks,which are a mixed
splendor of piston and of pistil;very well
provided an instant may be fixed
so that it will not rub,like any other pastel.

(While you and i have lips and voices which
are for kissing and to sing with
who cares if some oneyed son for a bitch
invents an instrument to measure Spring with?

each dream nascitur,is not made...)
why then to Hell with that:the other;this,
since the thing perhaps is
to eat flower and not to be afraid.

[e.e. cummings, voices to voices,lip to lip... (XXXIII)]

posted by rui at 20.10.05

Já foi capa do 24Horas

19.10.05

Há que repristinar o uso da palavra «repristinar».

posted by rui at 19.10.05

Manuel Fernandes

Sensação de Eusébio. A última que tive antes da desta noite foi com Mantorras que agora, de Eusébio, só tem, por desventura, o joelho.

posted by rui at 19.10.05

A, B, ...Sexo

18.10.05

Entre o neo-realismo e o realismo mágico.

posted by rui at 18.10.05

Eu hoje acordei assim ©

14.10.05

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It goes without saying

13.10.05

posted by rui at 13.10.05

Manuel Alegre

A candidatura faz lembrar a clássica caixa de sabão de Speaker's Corner. Toda a gente pode subir para cima dela e gritar: «Acho isto tudo mal», «Fora com os partidos», «Abaixo esses senhores políticos», «Há uma conspiração para me tramar», «O Nestum contém mel» e «Eu sou Napoleão».

posted by rui at 13.10.05

A idade da eficiência

11.10.05

A tortura é de uma sinceridade imaculada. Nenhum pico, nenhuma lâmina, nenhum calor é desperdiçado onde doa menos. Tudo é inequivocamente dirijido para onde dói mais sem desperdício da dor alheia.

posted by rui at 11.10.05

Anonimato

Eu não questionei o seu anonimato. Apenas lhe perguntei como é que se chamava.

posted by rui at 11.10.05

Festa «Quase Famosos»

Festa «Quase Famosos»
Quinta-feira, 13 de Outubro, a partir das 23h30 (Frágil)

À terceira, cumpre-se o ditado. Desta é de vez. À terceira festa, os DJs do Quase Famosos sobem a colina até ao centro noctívago de Lisboa, acompanhados do seu fiel séquito de imitadores de Elvis Presley, sósias da Britney Spears, taxistas de Alfama, candidatos autárquicos, malabaristas de rua, magistrados em greve, domésticas entediadas, intelectuais de café, actores de revista e demais gente gira e diferente.
Mais uma festa para toda a família, a pedido de muitas famílias, onde todo o amante da pop deste e de outros tempos se sentirá, como sempre, em casa.

Os Quase Famosos

posted by rui at 11.10.05

Relaxa tu, se conseguires

10.10.05

«Porque relaxa». É comum ouvir dizer-se que se gosta de conduzir - porque relaxa. Que se gosta de cozinhar - porque relaxa. Tretas. Eu gosto de conduzir, e de cozinhar, justamente porque me deixa nervoso, porque não me relaxa. «Relaxado»? Para além de tudo o mais é palavra horrível, uma mixórdia de lassidão com deslassado.

posted by rui at 10.10.05

Oferece-se

Eligible, not too stupid,
intelligible, and cute as Cupid,
knowledgeable, but not always right,
salvageable, and free for the night


Assunto sério.

posted by rui at 10.10.05

Educação sentimental

Teoria da decisão interactiva acaba de ganhar o prémio Nobel da Economia.

posted by rui at 10.10.05

Derrota bárbara

Manuel Maria Carrilho deveria extrair as consequências políticas da derrota em Lisboa e divorciar-se de Bárbara Guimarães.

posted by rui at 10.10.05

Muito bom dia Sr. Manuel Acácio e a todos os ouvintes, em primeiro lugar parabéns ao forum

No Forum da TSF há grandes posts orais. Todos aqueles textos lidos ao telefone pelos ouvintes. Possivelmente, a coisa mais aflitiva do mundo.

posted by rui at 10.10.05

Moral da noite eleitoral (ou só Moral em geral)

Life is uncertain. Eat desert first.

posted by rui at 10.10.05

Festa «Quase Famosos»

8.10.05

Festa «Quase Famosos»
Quinta-feira, 13 de Outubro, a partir das 23h30 (Frágil)

À terceira, cumpre-se o ditado. Desta é de vez. À terceira festa, os DJs do Quase Famosos sobem a colina até ao centro noctívago de Lisboa, acompanhados do seu fiel séquito de imitadores de Elvis Presley, sósias da Britney Spears, taxistas de Alfama, candidatos autárquicos, malabaristas de rua, magistrados em greve, domésticas entediadas, intelectuais de café, actores de revista e demais gente gira e diferente.
Mais uma festa para toda a família, a pedido de muitas famílias, onde todo o amante da pop deste e de outros tempos se sentirá, como sempre, em casa.

Os Quase Famosos

posted by rui at 8.10.05

Lendo (a biografia de) Churchill

3.10.05

Churchill o indomável, o génio, o espirituoso, o incorruptível, o Liberal, o Tory, o corajoso, o último genuíno conservador britânico. Alguém cujo cognome poderia ser o próprio nome: Churchill, o Churchill.
É desencorajante que estando Churchill sempre tão na moda política pensante (mais agora, se possível), sendo apropriado daqui e dali como Paco Bandeira em campanha, nunca ninguém se chegue a ele para metaforizar o amor. E é pena. Jamais alguém se sentiu um Churchill para nada de romântico. Ou nunca ninguém fez lembrar um Churchill para nada de paternal. É pena jamais uma carta de amor em português ter começado por «Dear Kat, vi-te ontem no Lidl de Xabregas». É pena jamais ter passado no canal sms da TVCabo a mensagem «props pá clemmie do ppl». É pena nunca um marinheiro português ter tatuado no braço «pussy kitten open the Dardanelles». É pena nunca, enfim, um poeta brasileiro ter ciciado, ao desfalecer: «Clementine Hozier / eu gosto de você».

posted by rui at 3.10.05

Demagogia feita à maneira

2.10.05

João Teixeira Lopes a lavar as escadas da Câmara Municipal do Porto e a explicar que estava a lavar a porcaria da edilidade.

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Cartões

Eu não preciso do cartão KingKard que já tenho. Eu preciso é do cartão Kierkegaard.

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O oitavo lado

1.10.05

O discurso de Stalin no Congresso do Partido em 1934 foi editado em vinil. Ocupava oito lados, quatro discos, portanto. O oitavo lado continha exclusivamente o prolongado e ruidoso aplauso. Poucos meses depois, num discurso por ocasião de uma mudança de conselho directivo de uma escola, o novo director, a concluir, elogiou o camarada Stalin. A parede de aplauso envolveu de imediato a sala. No Congresso de 1934, fora o próprio Stalin que, mostrando as palmas, mandou parar o aplauso. Como saber quando parar, se Stalin não estava? O aplauso continuou, três, cinco, dez minutos. Alguns, voltaram a sentar-se nas cadeiras, aplaudindo sempre. O aplauso continuou, por medo de se ser o primeiro a parar, por medo das consequências, por medo. Quinze minutos. Os primeiros desmaios. Meia hora: o primeiro a parar foi um professor de geografia. Não estou seguro se parou por um acto volitivo de coragem, se por mero cansaço. Não que qualquer das opções fosse, obviamente, aceitável. Era irrelevante. Foi deportado no dia seguinte.
O programa «Esquadrão G» constitui um bom exemplo disto mesmo. Sobre este programa, já escrevi aqui o que penso – e penso o pior possível. Mas estava curioso com as reacções, nomeadamente com as das associações gay, como Os Panteras Rosas, a Ilga, e o Opus Gay. Em geral, assobiaram para o ar. Que saiba, nenhuma condenou sem concessões o programa (a única reacção honrada e decorosa). Mesmo manifestando em privado o seu desacordo, alguém disse, «muita gente não protesta porque eles são muito importantes na noite gay», não podendo, por essa razão cor de neve suja, ser hostilizados. Estamos conversados, pensei.
O maior abismo em que o exercício da crítica pode cair é portanto este, o do oitavo lado do vinil, o do terror íntimo de parar de aplaudir. Não necessariamente por acriticismo, mas por medo. No Congresso, o Príncipe (não era Leopold, desta feita), estava presente e deu a deixa. Na escola, a acção do poder tirânico dispensava já a presença física do Príncipe, funcionando por dentro das pessoas como um sem-fim mecânico de uma violência doce. Quero dizer, de forma «espontânea», a única forma de espontaneidade que este Príncipe apreciava e que, por isso, não retribuía com a morte. Príncipes há e houve muitos, cá e lá, antes e depois: Leopoldo, o Estado, o Partido, o Mercado, a «Noite Gay». A liberdade é como a luz. Sem ela, o crítico, o cidadão, o ser humano será sempre um cego liderando cegos.

posted by rui at 1.10.05